Apesar do barulho causado pelo novo negócio, a cervejaria holandesa, líder mundial em marcas premium, não terá vida fácil no país. Com 70% do mercado brasileiro de cervejas, a AmBev já conhece muito bem a Heineken porque compete diretamente com ela em países como Chile e Argentina. Especialistas acreditam que a nova rival terá de passar por um processo de transição para se adaptar à demanda do consumidor local. "O líquido da fabricante holandesa é muito amargo, tipicamente europeu. Os brasileiros gostam de cervejas mais leves", diz um analista do setor.
Outro empecilho que a Heineken encontrará no mercado doméstico será lidar com empresas que driblam o cerco fiscal. "Cerca de 33% do preço do produto é composto por impostos. Se eu não pago, consigo vender mais barato. A Heineken não está acostumada a competir com fabricantes sonegadoras", diz um especialista. Tanto a vice-líder do mercado brasileiro (Schincariol) quanto a terceira colocada (Petrópolis) já foram alvos de operações da Polícia Federal e da Receita Federal por suspeitas de sonegação.
A Heineken terá, portanto, de vencer os mesmos obstáculos que não conseguiram ser superados pela Femsa. "O espectro muda muito pouco. Sai uma empresa global e entra outra. A empresa mexicana tentou construir a sua marca por meio das cervejas Sol e Kaiser, mas não teve sucesso. A Heineken terá a mesma dificuldade", completa.
Procuradas, a AmBev, a Heineken e a Femsa não quiseram dar entrevistas. Atualmente, a Heineken é a terceira maior produtora do mundo de cervejas, sendo superada apenas pela líder AB Inbev (dona da Ambev) e pela SABMiller PLC. Segundo dados do Instituo Nielsen, a empresa holandesa junto com a mexicana Femsa possui 7,2% da participação total do mercado brasileiro, permanecendo atrás das principais concorrentes Petrópolis (9,7%), Schincariol (13%) e AmBev (70%).
Projeções da Fator Corretora apontam que, com o novo negócio, a participação da Heineken (incluindo a Femsa) no Brasil deverá chegar a 8,5% até o fim de 2011. Dessa forma, a empresa holandesa permaneceria ainda atrás da Petrópolis (9,5%), da Schincariol, (11,5%) e da AmBev (70%). O novo negócio, portanto, não traria uma mudança significativa para o setor no país. "Neste momento, o que importa para a cervejaria holandesa é uma diversificação na estratégica global. Atuar em um mercado emergente, que tem crescido mais do que o europeu, poderá agregar resultados significativos para a empresa", afirma o analista Renato Prado.
A corretora Link chama a atenção para a disputa pelo terceiro lugar que se travará entre as cervejarias Heineken e Petrópolis. "Para subir uma posição no mercado brasileiro, a empresa holandesa aproveitará o aumento da renda do país para insistir no consumo das cervejas premium, especialidade da Heineken", diz o analista Rafael Cintra. "Apesar de não mudar muita coisa no Brasil, a entrada da Heineken como concorrente ajudará a consolidar ainda mais o setor", complementa.
México
A chegada da Heineken ao México foi encarada como um sinal de que o próximo movimento na xadrez global das cervejarias pode ser a compra da totalidade das ações da também mexicana Corona. A cervejaria belgo-brasileira AB Inbev entrou no capital da Corona quando a Inbev comprou a Anheuser-Busch e levou junto as ações da mexicana. Segundo o blog Primeiro Lugar, do Portal EXAME, a AB Inbev sempre teve interesse em comprar o resto das ações da Corona e esse movimento pode ganhar força agora que a Femsa virou uma das líderes globais por meio da associação com a Heineken.
Para os analistas do banco Barclays, no entanto, isso não é necessariamente verdade. Em relatório, o Barclays afirma que, se a SAB Miller tivesse vencido a disputa com a Heineken pela Femsa, a pressão pela venda do controle seria muito maior. Porque a cervejaria holandesa costuma entrar em novos mercados com uma estratégia de preservar preços e margens. "Nós acreditamos que a Heineken seja, em geral, menos agressiva que a SABMiller ao entrar em novos mercados. Portanto, é possível que, para os administradores da Modelo, esse seja um motivo para manter a independência", afirmam os analistas do banco britânico. Mas que ninguém espere pelo fim do assédio da AB Inbev.
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