Com mais de 2 trilhões de dólares em reservas, a China aproveita as pechinchas do pós-crise para adquirir grandes empresas ao redor do mundo. O que está por trás disso.
Num mundo que começa a vislumbrar o início do fim da crise global, despontam os primeiros vencedores, países e empresas que saem fortalecidos da catástrofe financeira dos últimos meses. Entre eles está a China, com seu crescimento de 8,5% do PIB previsto para 2009, uma cultura ancestral de poupança e descomunais reservas de 2 trilhões de dólares. O que fazer com todos esses recursos num momento em que há tantos países fragilizados? "Bem, que tal comprar?" -- foi a pergunta feita pelos burocratas de Pequim. E, como quase sempre acontece com as decisões tomadas por lá, nesse caso, a execução do plano começou rapidamente.
Os chineses foram às compras, arrematando participações em empresas internacionais de setores que vão do petróleo às bebidas alcoólicas. No início de setembro, a segunda maior montadora da China, a Beijing Automotive Industry China (Baic), anunciou a aquisição de uma parcela minoritária da montadora sueca Koenigsegg. Os detalhes do acordo não foram revelados, mas, segundo o The Wall Street Journal, o valor a ser pago pela Baic pode chegar a 425 milhões de dólares. Até o fechamento desta edição, duas outras montadoras ocidentais caminhavam para os braços do capital chinês.
A sueca Volvo, atualmente controlada pela Ford, vem sendo assediada pela Geely Automotive, quinta maior fabricante de veículos da China. E a GM chegou a um acordo preliminar de venda de sua divisão Hummer, responsável pelo desenvolvimento da série de jipões militares adaptados para uso urbano, para a Sichuan Tengzhong, fabricante chinesa de equipamentos pesados para o setor da construção civil. A expectativa é que o negócio seja fechado nas próximas semanas, por um valor próximo a 500 milhões de dólares.
O avanço da China na indústria automobilística global por meio de aquisições faz parte de uma estratégia maior de expansão pelo mundo dos negócios. Os líderes do PC chinês descobriram há muito tempo que o poder político depende em grande medida do poder econômico e que a aliança com empresas e marcas de prestígio pode ser um poderoso atalho para o aumento de sua influência global. A queda no valor de algumas dessas empresas apenas acelerou o processo. Desde o início da crise, as companhias chinesas fizeram quase 50 tentativas de aquisição ao redor do mundo. Desse total, 24 acordos foram concretizados, totalizando um investimento de 17 bilhões de dólares. As ofertas em fase de negociação, como as compras da Hummer e da Volvo, envolvem outros 18 bilhões de dólares. Para ter uma ideia da dimensão do avanço, o total de aquisições no exterior realizadas pelas empresas chinesas em 2002 foi de 140 milhões de dólares.
Por causa da profusão de investimentos em infraestrutura e da grandeza da escala de produção do país, os chineses sempre tiveram especial interesse em mineradoras, siderúrgicas e petrolíferas, como ficou evidente com a compra da Addax Petroleum, empresa inglesa que explora o petróleo da costa do Iraque, tem ações na bolsa de Londres e pela qual a estatal do petróleo Sinopec pagou 7,3 bilhões de dólares em junho. Foi a maior aquisição já realizada por uma companhia chinesa na história. Na mesma linha, ocorreram as recentes compras da australiana Oz Minerals, da refinaria americana Marathon e da Singapore Petroleum, de Singapura.
No mês passado, a PetroChina -- empresa mais valiosa do mundo, única avaliada em mais de 1 trilhão de dólares -- realizou o maior investimento já feito pela China no Canadá ao pagar 1,7 bilhão de dólares por uma parcela de 60% de dois projetos de extração de petróleo nas areias betuminosas da região de Alberta, no centro-oeste do país, a maior reserva de petróleo do planeta fora do Oriente Médio.
Empresas de commodities são alvos óbvios. A China precisa desesperadamente de matéria-prima para sustentar seu ritmo de crescimento -- e depende da produção de outros países para garantir seu suprimento. Mas, recentemente, o exótico capitalismo chinês se voltou para companhias de bens de consumo, algumas delas donas de marcas reconhecidas globalmente.
"Desta vez os alvos dos chineses foram diversificados, não só em sua localização mas principalmente em seus setores de atividade", afirmou a EXAME Tarun Khana, professor da Harvard Business School e autor do livro Bilhões de Empreendedores, sobre o futuro da economia chinesa. Em julho, o grupo de investimento China Investment Corp pagou 400 milhões de dólares por 1,1% das ações da inglesa Diageo, destilaria dona da vodca Smirnoff, do uísque Johnny Walker e da cerveja Guinness. A Diageo acaba de entrar na China com produtos que não enfrentam concorrência num dos mercados que mais crescem no mundo. No caso da Hummer e da Volvo, que está para ser arrematada pela Geely por "apenas" 2 bilhões de dólares, o objetivo é outro. O interesse chinês é comprar mais do que o negócio -- é adquirir, com ele, a tecnologia e uma marca estabelecida que ajude a abrir portas em mercados tradicionais, como Estados Unidos e Europa. Num setor como o automotivo, uma empresa chinesa sem histórico levaria anos (senão décadas) para conseguir o status de qualidade forjado por uma Volvo.
Notícia retirada do site: http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0952/mundo/dragao-vai-compras-498404.html
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