A instalação de centros de pesquisa de grandes empresas globais de petróleo pode transformar o Rio de Janeiro numa das capitais intelectuais mundiais de energia
Há 41 anos, sempre no mês de maio, a cidade texana de Houston, quarta maior dos Estados Unidos, é invadida por pesquisadores e executivos do setor de petróleo. Para esses profissionais, é praticamente obrigatório participar da Offshore Technology Conference — ou OTC, como a feira é conhecida. Nos quatro dias do evento, o mais importante do setor de óleo e gás, são apresentadas as mais novas tecnologias de exploração e produção de petróleo em altomar. Na edição deste ano, a OTC recebeu 70 000 pessoas de todas as partes do mundo e movimentou 90 milhões de dólares na cidade, sem contar os negócios fechados entre as empresas. Em outubro de 2011, o Rio de Janeiro se tornará a única cidade a sediar uma conferência da entidade fora de Houston. A escolha aconteceu depois de a organização do evento avaliar cidades chinesas, indianas e do Oriente Médio. “Todas as empresas de tecnologia do setor de petróleo querem estar no Rio”, diz o americano Stephen Graham, gerente executivo da OTC. “O Brasil tem grandes oportunidades e desafi os na indústria de petróleo e uma empresa líder em tecnologia, a Petrobras.”
A escolha do Rio de Janeiro referenda a avaliação de mais de uma dezena de especialistas ouvidos por EXAME: a cidade está diante da possibilidade de se transformar numa das capitais intelectuais do petróleo. A oportunidade é resultado da descoberta de reservas gigantes na camada do pré-sal — que podem quintuplicar as reservas brasileiras de óleo e gás para 80 bilhões de barris — e da decisão da Petrobras investir 80 bilhões de reais por ano para explorar esse novo petróleo. Os desafios tecnológicos envolvidos na exploração dos campos do pré-sal, localizados a 7 quilômetros abaixo do nível do mar, estão desencadeando uma espécie de novo ciclo do petróleo na cidade. A vantagem do ciclo atual é sua enorme dependência de novas tecnologias. Pela primeira vez, fornecedores globais do setor estão investindo em pesquisa no Brasil. É diferente do que ocorreu no fim dos anos 90, quando, com a quebra do monopólio, 30 petroleiras estrangeiras se instalaram no Rio para disputar blocos de petróleo nos leilões (que, até 2008, eram realizados anualmente pela Agência Nacional do Petróleo), e iniciaram operações com tecnologias desenvolvidas em suas matrizes.
O principal polo de inteligência está se formando na Ilha do Fundão, sede da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lá, numa área onde, por 40 anos, só cresceu mato, dez grandes fornecedores da Petrobras estão construindo centros de pesquisa com investimentos que somarão 500 milhões de reais nos próximos cinco anos. Juntas, as empresas empregarão 5 000 pesquisadores de diversas áreas da engenharia. A franco-americana Schlumberger foi a primeira a se instalar. Investiu 85 milhões de reais no centro de pesquisas que acaba de ser inaugurado, onde pretende criar uma espécie de forno que reproduz as condições nas rochas do fundo do mar. A empresa só tem estruturas semelhantes na Europa e nos Estados Unidos. A americana FMC, já em estágio avançado de construção de seus laboratórios, desenvolverá robôs capazes de fazer reparos em equipamentos no fundo do mar. Também dos Estados Unidos, a Baker Hughes pretende adaptar às rochas do pré-sal o sistema de geração de imagens produzidas nas perfurações que realiza em outros tipos de rocha. A última a anunciar sua chegada ao Parque Tecnológico do Fundão foi a americana GE. Há poucos dias, a multinacional tornou público um investimento de 175 milhões de reais para construir laboratórios de pesquisa na áreas de petróleo, energias renováveis, transportes e mineração. O Brasil será o quinto país a sediar um centro da GE desse tipo — os demais são Estados Unidos, Alemanha, China e Índia.
http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0981/noticias/o-novo-ciclo-do-petroleo?page=2&slug_name=o-novo-ciclo-do-petroleo
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