quarta-feira, 10 de março de 2010

A Espanha vai ser a nova Grécia?

Enquanto as grandes economias da Europa começam a vislumbrar uma luz no fim do túnel após a crise, os espanhóis parecem a cada dia cavar mais rumo ao fundo do poço.

Um certo mal humor crônico e o espírito de resignação diante de reveses em série parecem tão gravados na identidade espanhola quanto o flamenco e os quadros de Picasso. No futebol, ficaram para a história das Copas do Mundo os vexames da Fúria, como é conhecida a esquadra nacional, que entrou muitas vezes na competição como favorita para depois fracassar miseravelmente. "Jugamos como nunca y perdiemos como siempre", cravou um dos maiores diários esportivos espanhóis após mais uma eliminação da seleção nos gramados. Um tipo de frustração semelhante repete- se agora na economia. No final da década de 90, a Espanha, beneficiada pela adesão à União Europeia, engrenou uma impressionante marcha de desenvolvimento, deixando a segunda divisão do Velho Continente para se tornar um exemplo de superação e de modernidade a ser copiado por outros países. Por mais de uma década, cresceu a uma taxa média acima de 3% ao ano, índice considerado excelente para uma economia de mais de 1 trilhão de dólares. As multinacionais espanholas, como a Telefónica e o Santander, cresceram vertiginosamente, as taxas de desemprego despencaram e a situação fiscal do governo fazia inveja a franceses e britânicos. Como saldo desse período brilhante, a Espanha saiu da 11a posição para se tornar a nona economia mundial.

A crise financeira global acabou com a festa no país. Acostumado a ouvir elogios por manter um crescimento sustentado nos últimos 30 anos, o reino de Juan Carlos I agora corre para provar para o mundo que não é a próxima Grécia. Enquanto a maior parte dos europeus já começa a ver uma luz no fim do túnel - isso apesar dos crescentes temores em relação à sustentação do euro -, a Espanha parece a cada dia cavar mais rumo ao fundo do poço. Esse descompasso ficou claro com a recente divulgação dos resultados econômicos europeus do último trimestre de 2009. Depois de um ano de quedas sucessivas no PIB, seus principais motores puderam apresentar números positivos, ainda que modestos. A Alemanha teve crescimento zero, mas já vinha de uma melhora de 0,4% e 0,7% nos trimestres anteriores. A França e o Reino Unido conseguiram respirar, com crescimentos de 0,6% e 0,1%, respectivamente. Nessa corrida pela recuperação econômica, os espanhóis ficaram para trás: apresentaram contração de 0,1% de seu PIB, sendo a única entre as maiores economias do mundo a ficar no vermelho - a taxa para o ano de 2009 foi de 3,6% negativos.

A crise produziu um déficit de 11,5% - o mais alto desequilíbrio nas contas públicas na história da Espanha - e jogou 4 milhões de pessoas para a zona de desemprego, o equivalente a 19,5% da população economicamente ativa. Menos emprego, menor o consumo interno, que caiu 0,6% em 2008 e mais 6,4% em 2009. No final de fevereiro, cerca de 200 000 pessoas protestaram nas ruas das maiores cidades espanholas - Madri, Barcelona e Valência, entre outras - contra a reforma da previdência, principalmente no que diz respeito à elevação da idade mínima de aposentadoria, de 65 para 67 anos, um projeto de emergência encaminhado pelo governo para aliviar as contas públicas. A popularidade do primeiro-ministro José Luis Zapatero bateu recorde negativo e está em 33%, a mesma de George W. Bush em seu último ano na Casa Branca.

O grande motor do boom vivido nas últimas décadas foi o setor da construção civil, responsável por cerca de 10% do PIB nacional. Em 2007, o país já contava com 23 milhões de residências - uma para cada dois habitantes. As casas eram compradas à base do endividamento da população e o mercado aquecido levou a uma sobrevalorização nos imóveis de até 30% em um único ano. Com a chegada da crise financeira mundial, as vendas no setor caíram 47% em dois anos, alcançando seu nível mais baixo na década. Se não bastasse o terremoto que se abateu sobre um dos setores vitais de sua economia, a Espanha ainda tem uma série de agravantes que dificultam a recuperação. Os salários, por exemplo, são regidos por um complicado e rígido sistema que só pode ser alterado após negociações entre o poder central, as regiões autônomas e os sindicatos.

A tendência dessa complexa engrenagem nos últimos anos foi valorizar os salários. Mesmo com o país mergulhado na crise, um acordo anunciado no início de fevereiro já garantiu um aumento aos trabalhadores entre 1% e 2,5% para os próximos dois anos, dependendo do setor. Os custos para demitir um funcionário chegam a 45 dias de salário por ano de empresa, o que desestimula contratações. Numa tentativa de reduzir esse problema, a Espanha liberou na última década contratos temporários para jovens sem experiência. A medida permitiu a criação de muitos empregos, mas nenhuma empresa quis investir no treinamento de seus temporários, matando a produtividade. Enquanto os salários aumentaram em média 3,3% ao ano entre 1999 e 2007, a produtividade caiu 0,6% ao ano no mesmo período.

Esse conjunto de problemas amarra a economia espanhola e impede que o país tenha qualquer perspectiva de retomada num futuro próximo. "Enquanto a zona do euro vai crescer 1,5% em 2010, o PIB da Espanha deve encolher 1,5%", diz Ben May, economista da consultoria inglesa Capital Economics. "A retomada só deve ocorrer em 2011, na melhor das hipóteses." É unanimidade entre economistas que os principais pontos que o governo Zapatero precisa atacar são a política de salários, as garantias trabalhistas (principalmente os custos de demissão) e a previdência - todas medidas altamente impopulares. Nos salários, por exemplo, Zapatero já prometeu não mexer. E tenta costurar um acordo suprapartidário para reformar a previdência, mas a oposição se mostra resistente em assumir o compromisso às vésperas das eleições regionais. O primeiro-ministro precisa também dobrar os fortes sindicatos. Como se fosse pouco, tem ainda de convencer as regiões autônomas a cortar seus gastos, já que o governo central só tem autoridade sobre 20% do orçamento nacional.

A entrada da Espanha na União Europeia, em 1986, trouxe várias vantagens para o país. A mais visível foi o investimento no desenvolvimento da infraestrutura. Igualmente importante foi a exigência de uma disciplina contábil e fiscal. Em um país tão desacostumado com o rigor nas contas, o setor público passou rapidamente de uma situação de déficit a uma de superávit. A adesão ao euro, em 1999, trouxe consigo a taxa de juro única para os países que adotaram a moeda, tornando o dinheiro muito barato para as empresas e para a população, o que fez o consumo explodir. Agora, em um momento de crise, pertencer ao clube não parece tão vantajoso. Um remédio clássico para o problema do buraco nas contas é a desvalorização da moeda - coisa de que até os Estados Unidos lançaram mão recentemente - para reduzir a dívida e aumentar sua competitividade. Mas sem o controle do euro, essas "soluções" estão descartadas. Enquanto isso, países como Alemanha e França já se perguntam se vale a pena continuar usando o euro sob o risco de ser arrastado para uma crise que não é sua e, pior, gastar o próprio dinheiro conseguido com o trabalho de sua população e a rigidez de sua contabilidade para salvar "coirmãos" irresponsáveis. No campo dos vizinhos encrencados, não há nada igual no momento à Grécia e sua dívida equivalente a 120% do PIB. "A Espanha não vai quebrar, mas precisa de um choque de realidade", afirma o economista e cientista político espanhol José Ramon Pin, da escola de negócios Iese, de Madri, uma das mais prestigiadas do país. "Os espanhóis se comportam como a pessoa que se endivida para sair de férias, se diverte como um rei, mas não tem como pagar o cartão de crédito na volta. Não há saída milagrosa, é preciso poupar e trabalhar."

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