05.02.2009
A fraude bilionária envolvendo a Satyam, uma das estrelas indianas da tecnologia, abre uma crise de confiança no país - e pode gerar negócios para as brasileiras
Adeel Halim/Polaris Ramalinga Raju, fundador da Satyam: o escândalo expôs a fragilidade da legislação indianaPublicidadePor Camila Fusco
Se o mercado mundial de serviços de tecnologia da informação pudesse ser comparado a uma peça teatral, certamente a melhor analogia seria com um monólogo. Há anos a Índia ocupa o cenário sozinha, em um papel justificado pelos números de seu expressivo mercado. Desde 2004, triplicaram as exportações de serviços tecnológicos. No ano passado, o volume atingiu 50 bilhões de dólares, mais de 70% do volume mundial. Em mão-de-obra, as cifras são igualmente surpreendentes: quase 2 milhões de pessoas são empregadas diretamente pela indústria de TI e 500 000 profissionais de tecnologia saem das escolas todos os anos. Com tantos atributos, a Índia acostumou-se a observar de uma distância confortável a briga de seus concorrentes. Chineses, russos, brasileiros e cidadãos de um punhado de países do Leste Europeu nunca representaram ameaça real à dominância indiana. Um imprevisto recente, porém, está mudando o previsível roteiro. Há cerca de um mês, a Satyam, quarta maior empresa local de terceirização de tecnologia, admitiu fraudes contábeis bilionárias, no maior escândalo corporativo da história indiana. O episódio abriu uma crise de credibilidade nas empresas do país - e pode ter como consequência um novo jogo de forças no crescente mercado de exportação de serviços.
Batizada de "Enron indiana" - em referência à gigante americana de energia que perpetrou uma das maiores fraudes contábeis da história -, a Satyam foi alvo de manipulações de resultados durante sete anos. A última das manobras teve início em dezembro, quando a companhia tentou comprar por 1,6 bilhão de dólares duas empresas do setor imobiliário pertencentes à família de seu fundador, Ramalinga Raju. Questionada pelos investidores pela falta total de conexão com os negócios da Satyam, a transação foi abortada. Na primeira semana de janeiro, Raju admitiu publicamente que o volume de 1,04 bilhão de dólares declarado em caixa era simplesmente inexistente. "Era como se eu estivesse montando um tigre sem saber como descer dele sem ser devorado", disse Raju em uma carta ao mercado. Outras acusações apontaram ainda cerca de 13 000 funcionários fantasmas na Satyam, entre os 53 000 empregados totais, criados apenas para mascarar desvios de recursos.
O impacto do escândalo
Além da audácia da fraude, o que deixou o mercado mundial perplexo foi a habilidade da companhia em ocultar das auditorias da PricewaterhouseCoopers as manipulações. Uma das explicações para esse jogo de esconde-esconde está nas brechas existentes na legislação indiana - algo que torna a situação ainda mais grave, pois a Satyam pode não ser um caso isolado de fraude. O escândalo arranhou a imagem de boa governança corporativa cultivada durante anos pelas companhias do país e expôs fragilidades no modelo regulatório indiano. "As deficiências nas leis de valores mobiliários, os fracos direitos dos acionistas, a falta de independência dos diretores e até mesmo a dificuldade dos auditores em contratar profissionais experientes agora estão evidentes aos olhos mundiais", diz Sharmila Gopinath, diretora de pesquisas da Associação Asiática de Governança Corporativa. Embora as empresas de tecnologia tenham crescido e se globalizado, apoiadas no mercado de capitais, as regulamentações locais que impõem obrigações às companhias públicas não evoluíram no mesmo ritmo. "Os órgãos reguladores são fracos e não cobram devidamente diversas obrigações das empresas de capital aberto", afirma Gopinath. Dias depois de revelado o escândalo da Satyam, o Banco Mundial anunciou a exclusão da Wipro, outra gigante indiana de serviços de tecnologia da informação, de sua lista de fornecedores até 2011. O banco encontrou indícios de irregularidade em um esquema que beneficiava alguns de seus funcionários com a compra de ações da Wipro em termos vantajosos. Para a Wipro, a iniciativa não teve nada de ilegal, em um exemplo claro de choque cultural entre os padrões indianos de governança e as exigências internacionais.
Farta disponibilidade de mão-de-obra especializada, fluência na língua inglesa e generosos incentivos oficiais para as exportadoras fizeram da Índia o grande polo global de terceirização. O incidente da Satyam certamente não é suficiente para destronar o país dessa liderança absoluta, mas coloca um ponto de interrogação sobre a confiabilidade das indianas. A terceirização de serviços de tecnologia muitas vezes envolve a entrega de sistemas críticos para o dia-a-dia de companhias e bancos de grande porte, como a operação dos sistemas de gestão, responsável pelos controles de produção e pelo faturamento. Os contratos de terceirização desses sistemas costumam ser comparados a um casamento - ou seja, a substituição do fornecedor é uma tarefa complicada e cheia de obstáculos. Com as instabilidades políticas da Índia - especialmente diante das tensas relações com o vizinho Paquistão -, muitas empresas ocidentais já não se sentiam à vontade em manter uma relação de dependência com empresas indianas. O escândalo da Satyam só agravou essa percepção.
"A tendência de diversificação geográfica para colocar outros países no mapa da terceirização será acelerada. Este é o ano do Brasil", diz Antonio Gil, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom). Apesar das doses de otimismo, os candidatos a vice-líderes no mercado de terceirização de serviços de TI não terão uma tarefa fácil. É consenso entre os especialistas que as empresas contratantes não vão simplesmente trocar de fornecedor sem exigir garantias de controle e saúde financeira de seus novos parceiros. As empresas brasileiras, mexicanas, chinesas e russas que quiserem conquistar seu lugar ao sol precisarão mostrar mais evidências de boas práticas de governança corporativa.
"O que aconteceu com a Satyam deixará as empresas ainda mais atentas sobre a capacidade de entrega do fornecedor", diz João Lencioni, diretor de tecnologia da GE para a América Latina.
A GE é uma das clientes da Satyam e tem cerca de 700 milhões de dólares alocados na Índia. A companhia busca outras regiões para distribuir seus contratos, principalmente em desenvolvimento de software. Empresas brasileiras já foram colocadas no radar da GE, mas ainda precisam mostrar eficiência em custos e modelo operacional. Além disso, as candidatas em potencial precisarão mostrar que conseguem suprir necessidades de forma semelhante às rivais indianas. "Um dos principais apelos das empresas da Índia é a capacidade de entregar qualquer tipo de serviço de qualquer lugar do mundo, o que faz delas companhias globais", diz Mario Tucci, vice-presidente de alianças e marketing na América Latina da Tata Consulting Services, uma das maiores exportadoras indianas.
O caso da Satyam ainda não tem um desfecho previsto. O fundador, Ramalinga Raju, permanece detido e o conselho busca agora sanar os rombos cavados durante anos e compreender qual a dimensão real dos ativos da companhia. Entre as medidas já anunciadas estão a indicação dos bancos Goldman Sachs e Avendus como instituições que ajudarão a explorar as novas estratégias e garantir transparência na inspeção das operações. No Brasil, a filial da Satyam limita-se a dizer que funciona normalmente e que tem uma operação praticamente autossustentável. Ainda não é possível dizer com exatidão o tamanho da crise de credibilidade indiana. Mas é certo que a protagonista absoluta do mercado de serviços de tecnologia já não brilha como antes.
A fraude bilionária envolvendo a Satyam, uma das estrelas indianas da tecnologia, abre uma crise de confiança no país - e pode gerar negócios para as brasileiras
Adeel Halim/Polaris Ramalinga Raju, fundador da Satyam: o escândalo expôs a fragilidade da legislação indianaPublicidadePor Camila Fusco
Se o mercado mundial de serviços de tecnologia da informação pudesse ser comparado a uma peça teatral, certamente a melhor analogia seria com um monólogo. Há anos a Índia ocupa o cenário sozinha, em um papel justificado pelos números de seu expressivo mercado. Desde 2004, triplicaram as exportações de serviços tecnológicos. No ano passado, o volume atingiu 50 bilhões de dólares, mais de 70% do volume mundial. Em mão-de-obra, as cifras são igualmente surpreendentes: quase 2 milhões de pessoas são empregadas diretamente pela indústria de TI e 500 000 profissionais de tecnologia saem das escolas todos os anos. Com tantos atributos, a Índia acostumou-se a observar de uma distância confortável a briga de seus concorrentes. Chineses, russos, brasileiros e cidadãos de um punhado de países do Leste Europeu nunca representaram ameaça real à dominância indiana. Um imprevisto recente, porém, está mudando o previsível roteiro. Há cerca de um mês, a Satyam, quarta maior empresa local de terceirização de tecnologia, admitiu fraudes contábeis bilionárias, no maior escândalo corporativo da história indiana. O episódio abriu uma crise de credibilidade nas empresas do país - e pode ter como consequência um novo jogo de forças no crescente mercado de exportação de serviços.
Batizada de "Enron indiana" - em referência à gigante americana de energia que perpetrou uma das maiores fraudes contábeis da história -, a Satyam foi alvo de manipulações de resultados durante sete anos. A última das manobras teve início em dezembro, quando a companhia tentou comprar por 1,6 bilhão de dólares duas empresas do setor imobiliário pertencentes à família de seu fundador, Ramalinga Raju. Questionada pelos investidores pela falta total de conexão com os negócios da Satyam, a transação foi abortada. Na primeira semana de janeiro, Raju admitiu publicamente que o volume de 1,04 bilhão de dólares declarado em caixa era simplesmente inexistente. "Era como se eu estivesse montando um tigre sem saber como descer dele sem ser devorado", disse Raju em uma carta ao mercado. Outras acusações apontaram ainda cerca de 13 000 funcionários fantasmas na Satyam, entre os 53 000 empregados totais, criados apenas para mascarar desvios de recursos.
O impacto do escândalo
Além da audácia da fraude, o que deixou o mercado mundial perplexo foi a habilidade da companhia em ocultar das auditorias da PricewaterhouseCoopers as manipulações. Uma das explicações para esse jogo de esconde-esconde está nas brechas existentes na legislação indiana - algo que torna a situação ainda mais grave, pois a Satyam pode não ser um caso isolado de fraude. O escândalo arranhou a imagem de boa governança corporativa cultivada durante anos pelas companhias do país e expôs fragilidades no modelo regulatório indiano. "As deficiências nas leis de valores mobiliários, os fracos direitos dos acionistas, a falta de independência dos diretores e até mesmo a dificuldade dos auditores em contratar profissionais experientes agora estão evidentes aos olhos mundiais", diz Sharmila Gopinath, diretora de pesquisas da Associação Asiática de Governança Corporativa. Embora as empresas de tecnologia tenham crescido e se globalizado, apoiadas no mercado de capitais, as regulamentações locais que impõem obrigações às companhias públicas não evoluíram no mesmo ritmo. "Os órgãos reguladores são fracos e não cobram devidamente diversas obrigações das empresas de capital aberto", afirma Gopinath. Dias depois de revelado o escândalo da Satyam, o Banco Mundial anunciou a exclusão da Wipro, outra gigante indiana de serviços de tecnologia da informação, de sua lista de fornecedores até 2011. O banco encontrou indícios de irregularidade em um esquema que beneficiava alguns de seus funcionários com a compra de ações da Wipro em termos vantajosos. Para a Wipro, a iniciativa não teve nada de ilegal, em um exemplo claro de choque cultural entre os padrões indianos de governança e as exigências internacionais.
Farta disponibilidade de mão-de-obra especializada, fluência na língua inglesa e generosos incentivos oficiais para as exportadoras fizeram da Índia o grande polo global de terceirização. O incidente da Satyam certamente não é suficiente para destronar o país dessa liderança absoluta, mas coloca um ponto de interrogação sobre a confiabilidade das indianas. A terceirização de serviços de tecnologia muitas vezes envolve a entrega de sistemas críticos para o dia-a-dia de companhias e bancos de grande porte, como a operação dos sistemas de gestão, responsável pelos controles de produção e pelo faturamento. Os contratos de terceirização desses sistemas costumam ser comparados a um casamento - ou seja, a substituição do fornecedor é uma tarefa complicada e cheia de obstáculos. Com as instabilidades políticas da Índia - especialmente diante das tensas relações com o vizinho Paquistão -, muitas empresas ocidentais já não se sentiam à vontade em manter uma relação de dependência com empresas indianas. O escândalo da Satyam só agravou essa percepção.
"A tendência de diversificação geográfica para colocar outros países no mapa da terceirização será acelerada. Este é o ano do Brasil", diz Antonio Gil, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom). Apesar das doses de otimismo, os candidatos a vice-líderes no mercado de terceirização de serviços de TI não terão uma tarefa fácil. É consenso entre os especialistas que as empresas contratantes não vão simplesmente trocar de fornecedor sem exigir garantias de controle e saúde financeira de seus novos parceiros. As empresas brasileiras, mexicanas, chinesas e russas que quiserem conquistar seu lugar ao sol precisarão mostrar mais evidências de boas práticas de governança corporativa.
"O que aconteceu com a Satyam deixará as empresas ainda mais atentas sobre a capacidade de entrega do fornecedor", diz João Lencioni, diretor de tecnologia da GE para a América Latina.
A GE é uma das clientes da Satyam e tem cerca de 700 milhões de dólares alocados na Índia. A companhia busca outras regiões para distribuir seus contratos, principalmente em desenvolvimento de software. Empresas brasileiras já foram colocadas no radar da GE, mas ainda precisam mostrar eficiência em custos e modelo operacional. Além disso, as candidatas em potencial precisarão mostrar que conseguem suprir necessidades de forma semelhante às rivais indianas. "Um dos principais apelos das empresas da Índia é a capacidade de entregar qualquer tipo de serviço de qualquer lugar do mundo, o que faz delas companhias globais", diz Mario Tucci, vice-presidente de alianças e marketing na América Latina da Tata Consulting Services, uma das maiores exportadoras indianas.
O caso da Satyam ainda não tem um desfecho previsto. O fundador, Ramalinga Raju, permanece detido e o conselho busca agora sanar os rombos cavados durante anos e compreender qual a dimensão real dos ativos da companhia. Entre as medidas já anunciadas estão a indicação dos bancos Goldman Sachs e Avendus como instituições que ajudarão a explorar as novas estratégias e garantir transparência na inspeção das operações. No Brasil, a filial da Satyam limita-se a dizer que funciona normalmente e que tem uma operação praticamente autossustentável. Ainda não é possível dizer com exatidão o tamanho da crise de credibilidade indiana. Mas é certo que a protagonista absoluta do mercado de serviços de tecnologia já não brilha como antes.
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