quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Situação “artificial”?

Setores em alta representam situação “artificial”

Siderurgia e construção se destacaram no avanço de 10,7% dos primeiros pregões do ano na Bovespa, o que não deve se repetir nos próximos meses

Mariana Segala - AE

A primeira sequência firme de altas em muito tempo na Bolsa de Valores de São Paulo levou seu principal índice de ações, o Ibovespa, a acumular avanço de 10,7% na primeira semana do ano – em parte já destruído pela queda forte de segunda-feira. As primeiras colocadas? Ações de empresas de siderurgia e construção, segundo levantamento da consultoria Economática para o portal AE Investimentos.

Entre os piores desempenhos, telecomunicações e energia elétrica. A razão para certos setores terem sobressaído, segundo especialistas, é mais trivial que vinculada a fundamentos: as ações estavam com preços baixos demais após os tombos do ano passado. Mas como não houve mudança repentina no cenário econômico, os destaques deste “rali de início de ano” não servem de medida para avaliar quais serão os setores vencedores ao longo de 2009.

Na média, ponderada pela liquidez, as ações de siderúrgicas e metalúrgicas subiram 22,3% nos seis primeiros pregões de 2009, segundo a Economática. As das empresas de construção civil, por sua vez, acumularam alta de 21,7%. Na ponta oposta, os piores desempenhos ficaram com os papéis das empresas de telecomunicações, que caíram 0,9%, e de energia elétrica, que não decolaram, registrando discreta alta de 1,4%.

“Por incrível que pareça, siderurgia e construção só subiram tanto porque caíram demais antes”, afirma o gestor de renda variável da Precision Asset Management, Manuel Roberto Bravo Caldeira. Em suma, havia dinheiro – principalmente estrangeiro – para ser aplicado e a opção foi pelos papéis com preços mais baixos. Até dia 8, os investidores de fora tinham trazido R$ 1,083 bilhão para a Bolsa. “O rali se deu pela procura de papéis que tivessem recuado bastante. O investidor esqueceu de verificar os fundamentos, para avaliar se tais empresas darão neste ano lucro consistente com o que estão valendo.”

Que o diga o setor de construção. As ações da Rossi Residencial, que subiram 31% e lideraram as altas da primeira semana de janeiro, encerraram 2008 com queda acumulada de 83,2% no ano. Da mesma forma, as ações da Gafisa, que avançaram 23,9% nos pregões iniciais de 2009, caíram 68,2% no ano passado. Mas o setor, segundo Caldeira, ainda deve sofrer neste ano. “Não acredito que qualquer construtora vá quebrar, mas acho que 2009 está comprometido por conta do custo do crédito para as empresas se financiarem e para o consumidor adquirir seu imóvel.”

Siderúrgicas

Veja também Metais tendem a recuperar preços com ajustes de índicesEntre as siderúrgicas a situação não é diferente. Os papéis da CSN, destaque no levantamento da Economática, com alta de 27,9%, recuaram 43,2% em 2008 – assim como os da Gerdau, que subiram 24,4% na semana passada, frente a uma queda de 39,9% no ano passado. Neste caso, alguns gatilhos ajudaram a disparar as ordens de compra deste ano. Além do remanejamento de carteiras de investimentos, por conta de revisões em índices internacionais de matérias-primas (commodities), houve também o “efeito China”. “Levantou-se a percepção de que os estoques de minério de ferro da China tinham caído e precisavam ser recompostos”, explica o gerente de pesquisa da corretora Planner, Ricardo Martirn. “O impacto do desempenho dos metais, que subiram nos mercados internacionais, foi favorável sobre as ações de siderurgia.”

Martins destaca que estes setores, abrindo 2009 em alta, representam uma situação “artificial”. “Os indicadores continuam mostrando um freio na atividade econômica. Não podemos considerar o avanço uma mudança de performance”, afirma. Ele ressalta que altos e baixos serão comuns neste ano, à medida que o tom do noticiário específico sobre os setores seja positivo ou negativo. “Quando as notícias forem boas, os preços convidativos de certas ações chamarão investidores.”

Apostas

No extremo oposto, telecomunicações e energia elétrica – que são considerados apostas dos analistas e consultores para 2009 – não se saíram lá muito bem no rali de janeiro. “Estes setores não andaram porque tinham caído pouco até agora”, afirma Caldeira. As ações da Eletrobrás, expoente do setor elétrico e aposta do gestor, por exemplo, descolaram da média da Bolsa e avançaram 17% no ano passado.

Ações como estas, ressalta Martins, foram apostas defensivas em 2008 – pois pertencem a empresas com boa geração de caixa e com pouca necessidade de investimento, o que as faz ter um desempenho quase que previsível. “Quando há um ‘gás’ em outros setores, o investidor sai da proteção e procura se beneficiar da arrancada.” Mas a tendência, afirma, é de que daqui para frente o cenário ruim e de dúvida estimule a volta para os papéis defensivos. Eles, portanto, devem ser os verdadeiros vencedores do ano.

Para os internautas que participaram de enquete no portal AE Investimentos, o setor que promete decolar em 2009 é o bancário (veja o resultado aqui). Os bancos ganharam com 26,5% dos votos, seguidos pelo setor de alimentos (15,5% dos votos) e o imobiliário (10,8%).

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