quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

PESQUISA REUTERS - Preço do minério de ferro deve cair 30% em 2009

28 de Janeiro de 2009 11:58

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Por Humeyra Pamuk e Miyoung Kim

LONDRES/SEUL (Reuters) - O preço do minério de ferro deve cair em 2009, após seis anos de alta, por causa da redução da demanda, especialmente no setor siderúrgico, segundo pesquisa feita pela Reuters.

Será o fim de uma fase de prosperidade para mineradoras como BHP Biliton, Rio Tinto e a Vale, que no ano passado conseguiram uma alta de preços que, com exceção da brasileira, se aproximou de 100 por cento. O trio controla quase três quartos do mercado mundial do minério de ferro embarcado, ou cerca de 800 milhões de toneladas.

A pesquisa Reuters --resultado de entrevistas com 15 analistas na semana passada-- mostrou que o minério de ferro australiano deve sofrer queda de 30 por cento nos contratos negociados neste ano. Até outubro, os analistas ainda previam estabilidade em relação aos preços de 2008.

"Após seis aumentos consecutivos, totalizando quase 400 por cento, os preços do minério de ferro certamente vão cair, devido a um forte colapso da demanda," disse em relatório a analista Christina Lee, da consultoria Macquarie.

As negociações entre mineradoras e siderúrgicas para estabelecer o preço-padrão dos contratos de minério de ferro habitualmente são duras, longas e ressentidas, e para 2009/10 não deve ser diferente.

"Mesmo com uma correção de 40 por cento no preço dos contratos, será o segundo maior preço do minério de ferro na história, e esta é uma das piores recessões que testemunhamos nos últimos 40 anos," disse Daniel Brebner, diretor global de commodities do banco UBS.

ABUNDÂNCIA

De acordo com os analistas, as mineradoras devem reduzir sua produção para conter a oferta e tentar equilibrar o mercado, evitando um declínio mais acentuado nos preços.

Mas provavelmente prevalecerá a redução da demanda no setor siderúrgico, já que a crise afeta setores especialmente ligados ao aço, como as indústrias da construção civil e automobilística.

Analistas dizem que as mineradoras já cortaram a produção do minério de ferro, mas que isso não impede que haja uma abundância de matéria-prima no mercado.

"Não houve suficientes cortes no minério de ferro pelo lado da oferta", disse Brebner, do UBS. "Vimos cortes significativos no aço (...), que devem criar uma superoferta significativa do minério de ferro e, portanto, pressionar o preço (para baixo)."

O setor siderúrgico, que movimenta 800 bilhões de dólares por ano, está sendo atingido desde meados de 2008, quando o prelo do aço entrou em queda livre levando as empresas a reduzirem a produção, demitir funcionários e arquivar planos de investimentos.

A produção global de aço despencou mais de 24 por cento no último trimestre de 2008. Enquanto isso, a produção de minério de ferro da Vale e da Rio Tinto tiveram quedas de respectivamente 21 e 18 por cento.

Desde março de 2008, o preço do minério de ferro pré-embarque já caiu cerca de 60 por cento. Isso impossibilitou as mineradoras de aumentarem os preços com o mesmo apetite que no ano anterior.

Grandes siderúrgicas asiáticas, como a japonesa JFE, reivindicam que os preços pelo menos voltem aos padrões de 2007/08, o que significa uma queda de até 45 por cento no preço do minério de ferro.

Mas a Macquarie estima que isso não acontecerá, porque nos atuais valores já há uma redução de quase 80 dólares por tonelada em relação ao preço recorde do ano passado, quase 200 dólares/tonelada, e que esse preço é bastante atrativo diante da redução de oferta promovida por grandes mineradoras chinesas.

MAIS FLEXIBILIDADE?

O diferencial de frete entre o minério de ferro brasileiro e o australiano levou a uma rara divergência no preço-padrão de 2008, intensificando as discussões sobre mecanismos alternativos de preços.

Algumas mineradoras querem se livrar do sistema tradicional de preços-padrão, substituindo-o por um mecanismo mais flexível, que consiga um melhor alinhamento com as dinâmicas dos mercados do ferro e do aço.

Vários analistas acham que as siderúrgicas vão querer manter o sistema atual, já que ele cria alguma estabilidade num momento de preços voláteis --embora, na opinião de alguns analistas as siderúrgicas possam estar dispostas a aceitar uma maior flexibilidade.

"Nossa visão é de que isso deixa o caminho aberto para que os produtores australianos de minério de ferro imponham contratos mais híbridos, com vinculações aos preços-padrão, a índices e ao valor para entrega imediata", disseram os analistas do Real Banco da Escócia.

"Da perspectiva dos consumidores, isso pode não ser ruim, porque lhes permitiria reduzir o custo do minério de ferro se a demanda cair mais, além de capturar alguns benefícios do frete mais barato", disse o banco.

Em setembro, a Rio Tinto disse que planejava mais contratos de entrega imediata em 2009, enquanto a BHP Billiton defendeu a substituição do atual sistema de preços-padrão por um mecanismo de preços indexados.

A ArcelorMittal, maior siderúrgica do mundo, disse em setembro que apoiará o sistema de preços-padrão, já que ele cria uma certa estabilidade.

Rio Tinto, BHP Billiton e ArcelorMittal foram recentemente procuradas pela Reuters, mas não quiseram comentar a situação.

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