quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

"Gosto de investir no que os outros têm preconceito", diz fundador da Polo Capital

Gestora carioca obteve um retorno anual de 40% desde 2002 ao apostar em operações pouco usuais no mercado brasileiro.

A carioca Polo Capital é uma gestora de recursos pouco ortodoxa - segundo seus próprios sócios. Com 2 bilhões de reais divididos em sete fundos, a empresa obteve desde 2002 uma rentabilidade anual de 40% apostando, principalmente, em operações que exigem uma especialização que a maioria dos investidores não tem. "Gostamos de investir no que os outros têm preconceito", diz o sócio e cofundador da Polo Capital Marcos Duarte.

A estratégia mais utilizada pela Polo é conhecida no mercado como "valor relativo" ou "long-short". O gestor define um par de ações e fica comprado em uma e vendido em outra. Se a diferença de valor entre os papéis crescer com o tempo, a Polo embolsa essa variação, e vice-versa. Nesse tipo de operação, a gestora fica exposta apenas ao risco específico da oscilação desses dois papéis. Não interessa se a bolsa vai subir ou cair - tanto que a Polo foi uma das poucas empresas do mercado que ganhou dinheiro com renda variável em um ano difícil como 2008.

Mesmo quando decide ficar somente comprada em ações, a gestora usa estratégias incomuns. Entre os setores preferidos está o de telecomunicações, bastante evitado por outros fundos devido ao grande número de conflitos societários. Empresas em dificuldades financeiras e até com risco de quebrar também chamam a atenção da Polo - principalmente quando há uma chance de recuperação. Foi com essa filosofia que a gestora ganhou muito dinheiro com as construtoras e os bancos médios no ano passado.

Na área de renda fixa, a aposta da Polo foi se especializar em empréstimos a empresas com ações em bolsa quando praticamente todos os bancos brasileiros só aplicavam dinheiro em títulos público para aproveitar os juros altos. Como o risco de fazer tudo tão diferente do resto do mercado é alto, a gestora não abre mão da diversificação. Os fundos da Polo costumam ter entre 40 e 60 posições diferentes. Na entrevista a seguir, Marcos Duarte explica suas estratégias:

Como é a filosofia de investimentos da Polo Capital?

A gente tenta explorar áreas em que tenhamos uma habilidade específica ou em que os competidores não tenham essa vantagem competitiva. A área de valor relativo, em que usamos estratégias long-short, é uma delas. A outra área que a gente atacou de forma frontal são os empréstimos a empresas abertas. Há uma sinergia muito grande porque nossos analistas de ações já estudam o balanço das empresas. Às vezes, chegamos à conclusão que o preço da ação está num valor justo, mas a dívida oferece uma oportunidade. Como o Brasil vem de décadas de juro real muito alto, existia uma aversão muito grande por crédito a empresas até por parte dos bancos.

Os bancos preferem ganhar dinheiro com títulos públicos?

Eu costumo dizer que a decisão deles era entre plantar uma safra de tomate ou um pé de eucalipto. O eucalipto leva sete anos para ficar pronto para ser derrubado enquanto o tomate dá duas safras por ano. Um é curto prazo e o outro, longo prazo. A gente começou a investir nisso quando esse mercado ainda era muito incipiente. Era um tempo em que não havia muitos motivos para fazermos isso porque as oportunidades eram escassas. Mas a gente sempre gostou de tentar se especializar onde pudéssemos desenvolver vantagens competitivas.


Quanto dinheiro vocês administram?

Cerca de 2 bilhões de reais divididos em sete fundos. Grosso modo, 80% desse dinheiro está em ações e 20%, em crédito. Um fundo só tem crédito. Os outros seis são de ações com um pouco de crédito. O que difere cada um deles é o grau de alavancagem e agressividade. O carro-chefe é o fundo de valor relativo, o Polo Norte. O mais agressivo em alavancagem é o Polo FIA.

E quais são as características dessas carteiras?

Nossa estratégia de investimento pressupõe uma grande diversificação. Nos fundos de ações temos seis gerentes de portfólio e cada um deles cuida de até três setores. Na maior parte das vezes tentamos comprar o risco específico e ficar fora do risco de mercado. Por exemplo, ficamos comprados em uma ação da Vale e vendidos no de alguma outra mineradora e ganhamos ou perdemos a diferença entre a oscilação dos dois papéis. Então não importa se a bolsa vai subir ou cair nem se o preço do minério de ferro vai disparar e beneficiar todo o setor. O que importa é quanto a Vale, vai subir mais do que a outra mineradora. A maior parte desses pares de ações em que nos posicionamos está dentro de um mesmo setor. Dentro de nossos fundos, temos entre 40 e 60 posições diferentes.

Não são posições demais para seis pessoas se manterem suficientemente informadas para tomarem decisões?

Não, porque dentro de um mesmo setor eu posso montar diversas posições. Posso estar comprado em Vale ON e vendido em Vale, PN. Comprado em Bradespar e vendido em Vale. PN. E por aí vai. São estratégias muito distintas que envolvem a mesma empresa.

E o que vocês não fazem?

Não temos preconceito com a estratégia desde que estejamos confortáveis com o risco. Talvez seja muito bom operar boi gordo agora, mas a gente não se envolve em coisas que não sabemos fazer. A gente perde dinheiro em coisas que sabemos fazer. Isso é do jogo. Às vezes até descobrimos que não sabemos fazer algo tão bem quanto pensávamos. Mas só nos metemos em coisas após estudá-las profundamente.

Dentro dessa diversificação, existe alguma preferência?

A gente gosta muito daquilo que os outros têm preconceito, como telecomunicações. Existe um preconceito histórico com esse setor por razões muito boas, mas nós gostamos. Também sempre olhamos empresas em dificuldade em que achamos que há possibilidade de recuperação. Não é exatamente uma filosofia de ir contra o mercado, mas uma filosofia de tentar entender o preço que o mercado dá a um ativo e seu real valor.

Você poderia dar um exemplo?

No final de 2008, as construtoras estavam indo para o vinagre, sendo negociadas a uma fração do valor patrimonial. Só que nós percebemos que esse setor tinha todos os ingredientes para funcionar. A taxa de crédito imobiliário em relação ao PIB era baixíssima. Se o país desse medianamente certo, essa taxa iria aumentar. Há um déficit habitacional gigante. Tem crédito a longo prazo e instrumentos para garantir contratos. O que fizemos foi juntar um portfólio de 10 empresas diferentes e comprar esses papéis como se fossem uma companhia fictícia, juntando todos os balanços. Consideramos no nosso modelo que uma ou duas pudessem realmente quebrar, mas, mesmo assim, quem sobrevivesse compensaria o investimento. Demos muita sorte porque nenhuma quebrou. O governo ajudou baixando os juros e com o programa “Minha Casa, Minha Vida”. Acho que nesse caso geramos valor a partir de um pessimismo extremo.

Foi com isso que você ganhou mais dinheiro no ano passado?

Ganhamos dinheiro com muitas coisas. Foi um ano muito fértil. O ganho foi dividido entre algumas operações de telecomunicações que funcionaram muito bem, como a aposta na consolidação da Vivo. Ganhamos bastante dinheiro com o crédito corporativo de empresas que achamos que rendiam bem. Ganhamos também comprados em bancos pequenos e vendidos nos grandes. Avaliamos que, se os bancos pequenos quebrassem, os maiores teriam ainda mais problemas porque alguns deles estavam lotados de créditos de difícil recebimento, como da Aracruz e da Sadia. Já o problema dos bancos médios era relativamente pequeno. O Banco Central soltou algumas medidas de relaxamento que, em pouquíssimo tempo, inverteram o cenário completamente. O que o BC fez foi espetacular. Foram medidas que não custaram nada aos cofres públicos e trouxeram calmaria em um momento de extrema turbulência.

Como é sua equipe de investimentos?

Nossa área de análise tenta ser uma réplica muito tosca do que foi o banco Garantia. É uma área de preparação de novos talentos. Quando alguém entra, é adestrado com a metodologia da casa. Ao longo do tempo, as oportunidades vão naturalmente aparecendo. Sempre montamos a equipe mais eclética possível. Temos um sul-africano, uma lituana, uma americana. Tivemos um venezuelano, um australiano, um indiano que passou apenas alguns meses. Isso nos ajuda a sair do lugar comum.

Como você seleciona as empresas onde vai investir?

Nosso negócio não tem mistério. É 10% de cérebro e o resto, transpiração. É trabalhar mesmo, ler muito, correr atrás do que está acontecendo no mundo, tentar avaliar que setores devem ir melhor. É como aquela história do japonês e do americano numa caçada na África. Os dois param para almoçar, tiram os sapatos e então aparece um leão. O japonês começa a calçar o tênis e o americano pergunta: "Para que isso? Você vai correr mais que o leão?" E o japonês responde: "Não. Vou correr mais do que você."

E como é sua rotina?

Visitamos muitas empresas e tentamos agir com a maior diligência possível para identificar as fraquezas dessas companhias. Quando resolvemos investir, tentamos participar da escolha de seus dirigentes e conselheiros de forma que seja gente que possa contribuir. Tentamos dar sugestões de estratégias quando identificamos oportunidades que a administração não está vendo.

De que conselhos vocês fazem parte?

Estávamos no conselho de administração ou fiscal de mais de 15 empresas no ano passado. Eu já participei do conselho da Brasil Telecom. O conselho é completamente independente. Nós indicamos alguém, mas, na verdade, não temos participação. No máximo, mandamos sugestões para os outros conselheiros do que achamos que pode ser feito para melhorar a desempenho. Mas meu poder é nenhum, sou sempre minoritário. E não há como exigir que as idéias sejam aceitas, é o sujeito que vai decidir isso. Tem vezes que o cara enxerga um enorme valor no sócio. Tem outras pessoas que têm uma natural retração a sugestões de terceiros. O cara acha que aquele mundo é dele. Acho que o cara que tem uma cabeça mais aberta tende a entender melhor um mundo que está em mutação. Mas não necessariamente isso significa que um sairá perdedor e outro, vencedor. Tem setores em que os fatores exógenos são mais importantes do que as habilidades dos executivos. No setor de petróleo, por exemplo, o que interessa é o preço do barril.

Noticia retirada do site:
http://portalexame.abril.com.br/financas/gosto-investir-outros-tem-preconceito-diz-fundador-polo-capital-533761.html?page=3

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